Sexta-feira, Novembro 19, 2010



Eu que aponto os dedos das mãos,

Dos pés,

Que faço careta para os caretas,

Que mostro a língua para os linguarudos,

Que fico surda a essas vozes esganiçadas e educadas ao dicionário das academias,

Que grito só junto à multidão em meio à surdez global,

Que tenta fazer poesia em sua própria vida,

Não suporto os vestidos de madame, o novo carro importado, esse mundo hi-tech; de plástico - porque assim pode cair sem quebrar-

De tentar fazer alguma coisa por alguma coisa sabendo que não vai mudar coisa alguma,

Eu que de inútil consumo esse mundo cúltil,

Que vejo filmes alternativos, faço vídeo - art, fotografo um olhar enrugado sob sol a pino no ser-tão Brasil, que escuto música lado b e samba de raiz, me embebedo com Boticceli, que me desnudo e transcendo.

Nada disso é útil, nem cultural, apenas representa essa humanidade moderna que na falta de (?) precisa se preencher,

Eu que quebro esse espelho,

Pois não quero acreditar que esse, vocês, nós, sou eu!

Eu que aponto todos os dedos na falta de armas,

Eu sou ovários!

Maíra Castanheiro

Quinta-feira, Outubro 28, 2010

PAZ LUZ E HARMONIA PARA TODOS



Luz Violeta

Não sei por que, mas já vi esta cena antes. Trancafiado no quarto. Minha mente apertada. Meu coração não muito diferente. Ainda que após me balançar em ritmos africanos, esquinas de paralelepípedos. Ainda sangram dores do passado. Entre tantos ritmos alternados ainda me confundo nesse pelourinho. E novamente: já não sei. Minhas veias pedem mais álcool para seguir em frente. Mas me consolo com aquela sem ressentimentos. Minha cadela mocinha me cheira e me lambe, sem nada pedir em troca. Há inda fé nesse mundo que carrego no meu peito? E dos amores que tanto acreditei? Os tambores e as maracas voltaram a ressoar nos meus ouvidos, mas foram breves. Um amor fugido. Medo da vida. Esperanças perdidas. Mas quando tudo não mais parece, aparece. Noticias da América Central. Espíritos dos toltecas vêem de longe. A cidade de Tenochtitlán me aconselha a caminhar. Mesmo que não haja mais uma gota de domus para descer em minha garganta e queimar meu fígado. Continuo queimando. Sou de fogo. Não paro de arder. E já houve ares que me alimentou sem precedentes: chamas de luz violeta.
Basarte

Sábado, Maio 17, 2008

Memórias do Fogo - parte II - O Século do Vento

IX Bienal do Recôncavo



Tinta acrílica (tela 80x120)


Pobre República

25 de Abril de 2008.

Um grande império de formigas dominou a pia da casa. Um império de baratas também tentou, no entanto não conseguiram suportar a glória da conquista. Morreram da própria ambição afogadas na lama do banheiro. Esta parte da casa é agora irrespirável, um cemitério de excrementos e de baratas. Será que existe vida após a morte? Ou uma espécie de purgatório? Se a lista de “boas ações” for maior que as outras com certeza terão um lugar no céu.

Minha cadela dorme no seu mijo e disputa entre moscas anarquistas a própria merda. Incitadas pela desordem estatal e pelo assassinato do Papa aproveitam para tumultuar o meu sono. Agora acordado e mal-humorado procurei ligar a televisão para abstrair desse terror, mas logo sintonizada somou-se um outro horror. A morte de Isabella continua a ser prostituída pelos meios de comunicação. Num outro canal ensinava a forma correta de cortar uma alface. Enquanto isso o império das formigas continua a se expandir. É melhor desligá-la. Aliadas as formigas-brancas, mais conhecidas como cupins, aumentaram suas forças e já avançaram até a mesa de madeira da cozinha. É melhor fumar um para pensar melhor no que fazer.

26 de Abril de 2008.

Preciso comer, o gás acabou e a pia ainda está entupida. Inundada. Já fede a esgoto. Quero enfiar a mão para livrá-la, mas tenho receio. Não sei o que pode ter lá por baixo. Uma espécie de anfíbio antropófago caminha pelos meus sonhos. Não vou arriscar. É melhor esperar reforços.

Já faz alguns dias que os morcegos dominaram o quintal e fizeram Menina de refém. Enquanto eu tento limpar essa área dos ratos voadores, Larissa e sua perseverança entram no meio do fogo cruzado arriscando sua vida pela cadela que tinha fome e sede.

27 de Abril de 2008.

O império das formigas continua a se expandir e a ganhar território. Li numa reportagem que elas tragam os ninhos de baratas. Talvez tenha sido esse o real motivo da morte delas. Júnior, investigador em Ditadura, me forneceu ainda informações por telefone que reforçam as minhas suspeitas. Disse que elas seqüestram. Matam. E fraudam as provas. Acrescentou também sobre os métodos de tortura que utilizam para conseguir informações sobre os seus inimigos. E nos preveniu quanto a isso. Disse que sufocam, dão choques, arrancam seios e órgãos genitais

28 de Abril de 2008.

O fim de semana passou e a situação não melhorou. Estava sozinho, trancafiado no meu quarto, ainda habitável, a espera de reforços. Mergulhado nos livros de historiografia para a avaliação desta segunda-feira, cheguei a pensar que talvez fosse esse o destino da história. As formigas já imperavam na época dos canaviais. E minha casa está podre. As formigas já imperavam desde 1500, quando chegaram aqui sem pedir licença. Diziam-se descobridoras dessas terras, e que por isso as pertenciam. Escravizaram, estupraram e mataram aqueles que resistiram. E agora estão na minha casa.

29 de Abril de 2008.

Os reforços chegaram. E agora que estamos todos juntos temos que encarar os fatos. As formigas circulam pelos estreitos da casa. E se alastram como uma peste. Elas são um verdadeiro exército pronto para receber ordens e marchar. Despercebidas, caminham silenciosamente. De dentes afiados. São como mosquitos que chupam sangue das vacas e dos homens. Procuram parecer democráticas oferecendo entre ser como elas ou abraçar a morte.

O Império das Formigas não veio pra perder tempo. Seu tempo é planejado e controlado pelos ponteiros do relógio. Elas vêem acreditando na vitória. E foram feitas para isso. Vencem a luta, mas não a guerra. Da guerra não saem vencedores. Vivem de náuseas, vômitos, depressão, pesadelos e alucinações. Estas são constantes. No entanto possuem o batalhão 09 que é especializado em investigações cientificas e na produção de antídotos para este tipo de problemas causados pelo cérebro e pelo cansaço. Assim, superando rapidamente esse pormenor não perdem a ordem nem a disciplina. As que não conseguem acompanhar o ritmo das outras são deixadas para trás. Esquecidas. Vi duas dessas nessa última madrugada de Cachoeira comprando uma briga por um copo de cachaça.

Nunca dormem. Fazem-se de cegas e mudas e se comunicam pelo cheiro. Possuem um Deus e sua Rainha as possuem. Quem as criou? Ninguém sabe ao certo. Talvez elas sempre tenham existido.

1º de Maio de 2008 – depois de quase dois dias de uma sangrenta luta contra o império das formigas:

Não tínhamos mais forças e estávamos perdendo território a cada instante. Mas quando tudo parecia estar perdido vieram às lembranças dos nossos antepassados. Valentes guerreiros, filhos do sol e da lua. Ganhamos forças e coragem para enfrentar o que fosse. Mesmo o grande império das formigas.

Analisando a organização social das formigas percebemos que se organizavam pela divisão de tarefas, assim podem produzir mais rápido e em série. Existiam os operários, força de trabalho encarregado de toda produção imperial. E os soldados. Força de trabalho encarregado em defender o império e proteger a rainha. Daniel com seu porte largo e concentrado tomou 1 litro de catuaba para revigorar suas energias e começou por derrubar os soldados. Desmoronando as forças militares abriria espaço para a gente agir. Essa era a nossa estratégia. E assim foi. Júnior se encarregou de retomar a pia e seu esforço foi recompensado. Conseguimos um recuo significativo das formigas. Rogério se empenhou em persuadir os operários. Argumentou que elas não viviam em liberdade, mas escravizados pelo consumismo. Menina lançou fortes gazes que por pouco também não nos paralisou. Eu ferido e alucinado taquei fogo na Veja e incendiei-as. E em fim voltamos a ter paz, mas sem papel para limpar o cu.

Basarte

Memórias do Fogo - parte I - Os Nascimentos



Tinta acrílica (90cm de diâmetro)

"A CRIAÇÃO - A Mulher e o homem sonhavam que Deus os estava sonhando. Deus os sonhava enquanto cantava e agitava as suas maracas, envolvido em fumaça de tabaco, e se sentia feliz e também estremecido pela dúvida e pelo mistério. Os índios makiritare sabem que se Deus sonha com comida, frutifica e dá de comer. Se Deus sonha com a vida, nasce e dá de nascer. A mulher e o homem sonhavam que no sonho de Deus aparecia um grande ovo brilhante. Dentro do ovo, eles cantavam e dançavam e faziam um grande alvoroço, porque estavam loucos de vontade de nascer. Sonhavam que no sonho de Deus a alegria era mais forte que a duvida e o mistério; e Deus, sonhando, os criava, e cantando dizia: - Quebro este ovo e nasce a mulher e o homem. E juntos viverão e morrerão. Mas nascerão novamente. Nascerão e tornarão a morrer e outra vez nascerão. e nunca deixarão de nascer, porque a morte é mentira." Memórias do Fogo de Eduardo Galeano

As Marés

Tinta acrílica (Tela 40x20)

"As Marés : Antes, os ventos sopravam sem cessar sobre a ilha de Vancouver. Não existia o bom tempo nem havia maré baixa. Os homens decidiram matar os ventos. Enviara, espiões. O mirlo de inverno fracassou; e também a sardinha. Apesar de sua vista ruim e de seus braços quebrados, foi a gaivota quem pôde enganar os furacões que montavam guarda na casa dos ventos. Os homens mandaram então um exército de peixes, que a gaivota conduziu. Os peixes se jogaram junto à porta. Ao sair, os ventos pisaram neles, escorregaram e caíram, um atrás do outro, sobre a arraia, que os enrolou com a cauda e os devorou. O vento do oeste foi agarrado com a vida. prisioneiro dos homens, prometeu que não sopraria continuamente, que faria ar suave e brisas ligeiras e que as águas abandonariam as margens duas vezes por dia, para que se pudesse pescar moluscos na maré baixa. Perdoaram sua vida. O vento de oeste cumpriu sua palavra." Memórias do Fogo de Eduardo Galeano.








Sem Título

Preciso escrever, mas não tenho vontade. A ressaca do aniversário dos quatro anos da UFRB ainda explode na minha cabeça. - Quatro anos de UFRB, MARAVILHOSO Edifício Leite Alves, a cede do Centro de Artes e Humanidades e Letras, proporcionado pela luta do PT. - diziam e falavam. Discursos maravilhosos. Atordoavam minha cabeça, todas essas pessoas pintadas e sorridentes e simpáticas de mais. Com roupas caras e apertadas, vestidos compridos e elegantes. Amontoavam, atordoavam e me causavam vontade de cuspir fezes nelas.

Gostaria apenas de dizer para aquela platéia que não vejo motivo nenhum para sorrisos tão esboçados. E sinto isso, talvez, por não terem chamado alguém do CAHL para representar os alunos da UFRB na mesa. E sim um fulano de Cruz das Almas. E talvez pela “Universidade” anunciar esta comemoração apenas na internet. Pode ser um curto circuito das minhas atividades neurológicas, resquícios de drogas de tempos passados, mas não vi muitos estudantes nessa festa bonita. Também eles não são os elementos mais importantes da universidade. Uma mensagem lançada na internet bastava e um convite pessoal para tantos políticos era necessário. Esses são os mais celebres a quem até agora a “Universidade” foi destinada. Os grandes criadores, os que inventam, ganham e depois fazem. Discursos, granas e UFRB.

Mas para quê ou para quem eu estou dizendo isso? Santa ingenuidade pensar em dizer algo assim. Todo mundo já sabe e sorriem e bebem drinks e petiscos servidos com as regras de etiquetas. Se eu tivesse terminado minha graduação de economia com certeza já teria aprendido a conviver com essa merda. Mas, agora, compreendo que aqui também se gradua.

Basarte